A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen e o filósofo Martin Heidegger descrevem, por meio de recursos expositivos bem diferentes, uma mesma atitude geral comumente assumida por uma pessoa ante o desvelamento de sua própria mortalidade a partir da constatação da morte ou do adoecimento mortal de uma outra pessoa. Qual alternativa melhor descreve essa atitude?

FUVEST 2026 Questão 47

iii. Busca Pelos campos fora Caminhava sempre Como se buscasse Uma presença ausente “Onde estás tu, morte? Não posso te ver: Neste dia de Maio Com rosas e trigo É como se tu não Vivesses comigo [...] É verdade que passas Pela cidade às vezes Nos caixões de chumbo: Mas viro o meu rosto Pois não te compreendo És um pesadelo Uma coisa inventada Que o vento desmente Com suas mãos frescas E a luz logo apaga” [...] Sophia de Mello Breyner Andresen. O Cristo cigano. É tão tenaz o desvio que a esquivança encobridora ante a morte exerce sobre a cotidianidade que, no ser-um-com-ooutro, seus ‘próximos’ ainda se empenham com frequência precisamente junto ao ‘moribundo’ para o persuadir de que escapa da morte e retorna em seguida à tranquila cotidianidade do mundo de suas ocupações. Tal ‘preocupação-com-o-outro’ pensa ‘consolar’ dessa maneira o ‘moribundo’. Ela quer devolvê-lo à existência, ajudando-o a encobrir ainda mais completamente sua possibilidade de ser mais própria e irremetente. A gente se ocupa dessa maneira de uma constante tranquilização sobre a morte. Mas, no fundo, ela vale tanto para o ‘moribundo’ quanto para ‘os que consolam’. E mesmo no caso do deixar de viver, a publicidade ainda não deve ser perturbada, nem inquietada pelo acontecimento na sua ocupada despreocupação. Pois não raro se vê na morte dos outros uma inconveniência social, quando não mesmo uma falta de tato, cuja publicidade deve ser poupada. Martin Heidegger. Ser e Tempo, §51.

Sophia de Mello Breyner Andresen. O Cristo cigano. Martin Heidegger. Ser e Tempo, §51.

A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen e o filósofo Martin Heidegger descrevem, por meio de recursos expositivos bem diferentes, uma mesma atitude geral comumente assumida por uma pessoa ante o desvelamento de sua própria mortalidade a partir da constatação da morte ou do adoecimento mortal de uma outra pessoa. Qual alternativa melhor descreve essa atitude?

Anterior Próxima

Resolução

A questão aborda a atitude humana diante da morte, tanto na perspectiva poética de Sophia de Mello Breyner Andresen quanto na filosófica de Martin Heidegger. Ambos os textos tratam da tendência das pessoas em evitar o confronto direto com a própria mortalidade, seja desviando o olhar da morte (como no poema), seja tentando tranquilizar o moribundo e a si mesmos (como analisa Heidegger). O conceito central é o de 'fuga' ou 'encobrimento' do sentido existencial da morte: ao invés de encarar a finitude como parte essencial da existência, as pessoas preferem suavizar ou ignorar essa realidade, mantendo a rotina e evitando a angústia existencial. O raciocínio para chegar à alternativa correta passa por identificar, nos textos, essa atitude de negação ou esquiva diante da morte, e não de enfrentamento, empatia profunda, respeito às tradições ou insensibilidade total. Assim, a alternativa D é a que melhor descreve essa postura: uma fuga acalmadora, que encobre o sentido existencial da mortalidade.

Comentários por alternativa

  1. A O enfrentamento heroico do absurdo existencial contido na morte.

    A alternativa A está incorreta porque não há enfrentamento heroico ou consciente do absurdo existencial; ao contrário, os textos mostram uma tendência de evitar o confronto com a morte.

  2. B O respeito silencioso às tradições culturais voltadas ao morrer.

    A alternativa B erra ao sugerir respeito às tradições culturais do morrer, algo que não aparece nos textos, que tratam de uma atitude de esquiva e não de ritualização ou respeito tradicional.

  3. C A empatia antecipadora com os mortos, participando de sua dissolução existencial.

    A alternativa C está errada porque não se trata de empatia antecipadora ou participação na dissolução existencial do outro, mas sim de evitar pensar ou sentir profundamente sobre a morte.

  4. D A fuga acalmadora, que encobre o sentido existencial da mortalidade.

    A alternativa D está correta pois descreve precisamente o fenômeno abordado nos textos: uma fuga acalmadora, que mascara ou encobre o verdadeiro sentido existencial da mortalidade, tanto para o moribundo quanto para quem o cerca.

  5. E A perda da sensibilidade, de modo a nem mesmo poder perceber a ocorrência da morte

    A alternativa E está incorreta porque não se trata de perda total de sensibilidade ou incapacidade de perceber a morte, mas sim de uma escolha consciente de evitar o enfrentamento direto com ela.

Flashcards

Perguntas pontuais sobre o tema desta questão. Toque no card para virar e use as setas para navegar.

1 / 7
1. O que significa 'encobrimento' da morte segundo Heidegger?
É o ato de evitar ou mascarar o enfrentamento direto com a própria mortalidade, fugindo da angústia existencial que ela provoca.
2. Como o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen ilustra a esquiva diante da morte?
O eu lírico caminha buscando a morte, mas a trata como algo distante, irreal ou inventado, mostrando dificuldade em encarar sua presença.
3. Qual é a crítica de Heidegger à atitude cotidiana diante da morte?
Heidegger critica a tendência de tranquilizar o moribundo e a si mesmo, evitando o reconhecimento da morte como possibilidade própria e intransferível.
4. Por que a morte é vista como 'inconveniência social' segundo Heidegger?
Porque sua ocorrência perturba a rotina e a tranquilidade do cotidiano, sendo muitas vezes tratada como algo a ser ocultado ou minimizado.
5. O que é 'ser-para-a-morte' na filosofia existencialista?
É a compreensão de que a existência humana é finita e que a consciência dessa finitude pode dar autenticidade à vida.
6. Como a sociedade costuma lidar com a morte, de acordo com os textos?
A sociedade tende a evitar o tema, suavizar ou negar sua realidade, preferindo manter a normalidade e o conforto emocional.
7. Qual a diferença entre enfrentamento e fuga diante da morte?
O enfrentamento implica reconhecer e aceitar a mortalidade, enquanto a fuga envolve evitar, negar ou encobrir essa realidade.

FUVEST · 2026 · 1º Dia · Questão 47