A trajetória da artista autodidata Maria Auxiliadora da Silva desafia as estruturas convencionais do sistema de artes visuais no Brasil ao articular, em sua obra e atuação, experiências de pertencimento, identidade e resistência. Em crítica publicada no livro “Pensando a Arte”, Mário Schenberg descreve sua produção como marcada pela "vivência autêntica da vida popular", "senso mágico afro-brasileiro" e uma "imaginação construtora de arquiteturas cromáticas e lineares". Considerando a obra “Capoeira”, os comentários de Schenberg, o texto de Oscar D’Ambrozio e os debates contemporâneos sobre arte e decolonialidade, é correto afirmar:

FUVEST 2026 Questão 10

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Capoeira, Maria Auxiliadora da Silva, técnica mista sobre tela, 69,5 x 75 x 1,5 cm, 1970. Acervo MASP. “Maria Auxiliadora nasceu em 24 de maio de 1935, em Campo Belo, MG, numa família de 18 irmãos, gerados por Dona Maria, uma humilde bordadora, que acumulava ainda as funções de dona-de-casa, escultora e pintora. (...) Auxiliadora, ainda criança, mostra uma inclinação natural para tingir os fios que a mãe borda para fora e, com 11 anos, já desenhava, com carvão, figuras nos muros. Absorta nessa atividade, esquecia muitas vezes de olhar as panelas no fogo, e a comida da família queimava. (...) Sem conhecer perspectiva ou claroescuro, bem dentro dos princípios dos artistas autodidatas, Auxiliadora foi aprimorando sua arte. No fim dos anos 1960, juntou-se, com outros integrantes da família, como o escultor Vicente de Paula e o pintor João Cândido, ao grupo que girava em torno do músico, teatrólogo e poeta negro Solano Trindade, no Embu das Artes, SP, onde se formara um centro de artesanato, principalmente de cultura e arte de origem africana.”

D'AMBROZIO, Oscar. Maria Auxiliadora. Um cometa das artes. Adaptado.

A trajetória da artista autodidata Maria Auxiliadora da Silva desafia as estruturas convencionais do sistema de artes visuais no Brasil ao articular, em sua obra e atuação, experiências de pertencimento, identidade e resistência. Em crítica publicada no livro “Pensando a Arte”, Mário Schenberg descreve sua produção como marcada pela "vivência autêntica da vida popular", "senso mágico afro-brasileiro" e uma "imaginação construtora de arquiteturas cromáticas e lineares". Considerando a obra “Capoeira”, os comentários de Schenberg, o texto de Oscar D’Ambrozio e os debates contemporâneos sobre arte e decolonialidade, é correto afirmar:

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Resolução

A questão aborda a trajetória da artista autodidata Maria Auxiliadora da Silva, relacionando sua produção artística com debates sobre pertencimento, identidade, resistência e decolonialidade no contexto das artes visuais brasileiras. Para resolvê-la, é necessário compreender conceitos como arte 'naïf' ou 'primitivista', o papel da crítica institucional, a exclusão histórica de artistas racializados e periféricos, e a crítica decolonial ao cânone eurocentrado. O raciocínio envolve analisar como as categorias tradicionais podem ser insuficientes ou até mesmo excludentes ao tratar produções como a de Maria Auxiliadora, que trazem experiências negras, femininas e periféricas, questionando a neutralidade e universalidade dos critérios de avaliação artística. A alternativa correta reconhece que rotular sua obra como 'primitivista' pode ser uma forma de deslegitimar sua complexidade estética e política, enquanto as demais alternativas incorrem em erros conceituais ou históricos.

Comentários por alternativa

  1. A A obra de Maria Auxiliadora é classificada como "naïf" ou "primitivista" por apresentar um vocabulário visual simples e espontâneo, característico de artistas sem formação acadêmica, o que justifica sua exclusão dos grandes circuitos institucionais da arte contemporânea.

    A alternativa A está errada porque, embora a obra de Maria Auxiliadora tenha sido classificada como 'naïf' ou 'primitivista', isso não justifica sua exclusão dos grandes circuitos institucionais. Tal classificação frequentemente reflete um viés excludente e colonizador, não uma avaliação neutra de mérito artístico.

  2. B A produção de Maria Auxiliadora deve ser compreendida como uma manifestação isolada, desprovida de intencionalidade crítica ou diálogo com os debates socioculturais e políticos do seu tempo, reforçando o lugar da arte popular como expressão puramente intuitiva.

    A alternativa B está incorreta ao afirmar que sua produção é uma manifestação isolada e desprovida de intencionalidade crítica. Pelo contrário, a obra de Maria Auxiliadora dialoga com questões socioculturais e políticas, especialmente ligadas à vivência negra, feminina e periférica.

  3. C A visibilidade póstuma de Maria Auxiliadora nos museus e exposições de arte brasileira evidencia o reconhecimento institucional imediato e contínuo de artistas racializados e periféricos no país, fruto da tradição inclusiva das artes visuais brasileiras desde o século XX.

    A alternativa C está errada porque sugere que houve reconhecimento institucional imediato e contínuo de artistas racializados e periféricos, o que não corresponde à realidade histórica das artes visuais brasileiras, marcadas por exclusão e marginalização desses grupos.

  4. D A categorização da obra de Maria Auxiliadora como “primitivista” ou “ingênua” revela, muitas vezes, uma perspectiva colonizadora que desconsidera a complexidade estética, a intencionalidade política e a potência simbólica de sua produção, ligada a vivências negras, femininas e periféricas que tensionam o cânone eurocentrado da arte.

    A alternativa D está correta pois reconhece que a categorização como 'primitivista' ou 'ingênua' pode ser uma forma colonizadora de desconsiderar a complexidade e a potência simbólica da obra de Maria Auxiliadora, que tensiona o cânone eurocentrado ao trazer experiências negras, femininas e periféricas para o centro do debate artístico.

  5. E A valorização da obra de Maria Auxiliadora por críticos como Mário Schenberg atesta a neutralidade das categorias da crítica de arte moderna no Brasil, demonstrando que critérios estéticos sempre foram suficientes para reconhecer artistas não brancos e mulheres no campo artístico.

    A alternativa E está errada porque a valorização por críticos como Schenberg não demonstra neutralidade das categorias da crítica de arte. Os critérios estéticos historicamente não foram suficientes para garantir reconhecimento a artistas não brancos e mulheres, evidenciando a existência de barreiras institucionais e sociais.

Flashcards

Perguntas pontuais sobre o tema desta questão. Toque no card para virar e use as setas para navegar.

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1. O que significa arte 'naïf' ou 'primitivista' no contexto das artes visuais?
Arte 'naïf' ou 'primitivista' refere-se a produções de artistas autodidatas, geralmente caracterizadas por simplicidade formal e ausência de técnicas acadêmicas, mas essa rotulagem pode carregar preconceitos e desvalorizar a complexidade da obra.
2. O que é decolonialidade nas artes visuais?
Decolonialidade nas artes visuais é um movimento crítico que busca questionar e superar a centralidade do cânone eurocêntrico, valorizando produções e saberes de povos historicamente marginalizados.
3. Como a obra de Maria Auxiliadora desafia o sistema tradicional das artes visuais brasileiras?
A obra de Maria Auxiliadora desafia o sistema ao trazer experiências negras, femininas e periféricas, questionando padrões eurocentrados e propondo novas narrativas e estéticas.
4. Por que a classificação de arte 'ingênua' pode ser problemática?
Essa classificação pode ser problemática porque reduz a obra a uma suposta falta de técnica ou intencionalidade, ignorando sua complexidade estética e política e reforçando visões colonizadoras.
5. Qual a importância do pertencimento e da identidade na produção artística de Maria Auxiliadora?
Pertencimento e identidade são centrais na obra de Maria Auxiliadora, pois ela expressa vivências e resistências de grupos marginalizados, tornando a arte um instrumento de afirmação e crítica social.
6. O que é o cânone eurocentrado nas artes e por que ele é criticado?
O cânone eurocentrado privilegia produções e valores artísticos europeus, sendo criticado por excluir e subalternizar expressões culturais de outros contextos, como as afro-brasileiras e indígenas.
7. Como a crítica institucional pode afetar o reconhecimento de artistas periféricos e racializados?
A crítica institucional pode perpetuar exclusões ao adotar critérios e categorias que desvalorizam ou invisibilizam a produção de artistas periféricos e racializados, dificultando seu acesso ao reconhecimento e ao mercado de arte.

FUVEST · 2026 · 1º Dia · Questão 10